Um texto dá-se a ler. Talvez essa frase não seja minha, seja dele, tanto faz. Existe um acordo lícito entre mim e ele, uma espécie de permissividade também aceita por ti, que, em algum momento, disse sim. Eu aceito, digo, ele se me dá então, sem restrições aparentes, minhas ou suas. Pergunto-lhe altiva: eu também me dou a ti? Sim, ele me diz, tu também te dás a mim, pois, desde que te decidiste a começar, existia, já neste ato primeiro, doação. Ele prossegue me dizendo vem, estou a esperar-te, tu precisas de mim tanto quanto eu preciso de ti. Precisamos, pois, um do outro e, em voz impronunciada, lemo-nos um no outro, como num ato de amor. Mas, antes de nós, existes tu, existiam outros. Assim se sabe há muito e talvez assim se continue até sempre. Apenas dessa forma é possível que ele exista e que nós existamos também. Tornamo-nos, pois, um triângulo. Neste triângulo que se deu a existir, somos eu, tu e ele. Mas neste, as nossas posições não são fixas, podendo ser cada um uma ponta, ou três ao mesmo tempo, ou nenhuma. Outros também existiam e faziam de si partes desse triângulo – ele subsiste desde que o primeiro texto deu-se a ler e alguém o fez, algures. Somos nós, agora, a estar neste triângulo e, como em qualquer triângulo, compartilhamos a experiência do sagrado. Regozijamo-nos. Tu me dizes então, estupefato, que um texto deu-se a escrever. Invariavelmente.
Encarte publicado na Revista Gazua n°01, 2005, editada pelo Grupo Rasura: Diego Vinhas, Eduardo Jorge, Henrique Dídimo e Júlio Lira.
Sobreimpressão Texto Sobre Si
Convite do lançamento
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