12/05/2008...7:56 pm

da beleza dos rituais

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Texto publicado na revista Perversos n°3, em 2005,  publicação independente, coordenada pelos amigos Cláudio Leitão, Joacy Pinheiro e Marcelo Magalhães.

revista perversos  

uma vez mais, para o teatro,

uma história diferente, a mesma história,

em movimento inverso

 
“Homem algum é senhor do vento, para reter o vento;
ninguém é senhor da morte, e nessa guerra não há trégua;
nem mesmo a maldade deixa impune quem a comete.”
debaixo do sol: às claras, desenterrando o que está morto.
enxadas, pás, escavadeiras, duas de cada, para cada par de mãos, dos dois.
inda tinha outra, de ponta afiada, para ir tirando as lascas

destes estilhaços que ficam por debaixo da terra.

do que está morto, apenas fica aparente, na superfície, aquilo que acreditamos por.

– Não duvide, pois, do que está embaixo, seja origem, princípio ou matéria,

 

vivo, mesmo sem respirar, continua

o de dentro que se tira, desencava.
em pausas, já que o tempo do de dentro é outro,
e já que existe tempo para tudo.
as cavas: nesse movimento contínuo, que seja de tirar para respirar o que ainda dentro,

 

na repetição dos movimentos, estivesse.

em meio a tanto suor, se tinha como pensamento:  – O trabalho braçal há de ser duro, meu deus!
mesmo porque todo o trabalho que se faça não é suficiente, muita terra por pôr ao redor

e nisso iam de por em medida, as palavras, no que se desenterra, porque morto vivo morto,

 

 

 

outras tantas apareciam, naturalmente. dois deles, os dispostos, os que estavam, travavam,

 

por entre cavacos, em palavra pensada:
Mais vale dois do que um só. Porque se caem, um levanta o outro. A corda tripla não se rompe facilmente.
o que se via, visto: no de fora: meio tronco de árvore, de cima disto o resto já tinha ido, ficava então este toco,

 

o resquício de algo que se acredita morto. sem folhas ou, viço. disso que podia ser a matéria primeira do poema. da respiração. da metamorfose. isto está morto mesmo, está.

 

entre estes dois limites há algo que não se diz, porque de dentro e fora, vivo.
o que não se via, visto: no de dentro: mais de meio metro de árvore, disto que resta, sem ser vertical,

 

seu domínio é o que se espraia, toma mundo, mesmo que seja este que não se pode ter, o da origem,

 

o do de dentro mesmo, profundo.
e correr atrás do vento, que já se esteve aqui, nesse ir e vir, repetição de antes,
nesse revolver de muita terra ainda do que se acredita morto.
tudo isso é também procura de vento.


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