exposição 54º salão de abril

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da idéia/estratégia à realização:

Esta intervenção urbana foi fruto de muitas negociações burocráticas: pensando no Salão de Abril, como um salão de arte oficial e extremamente tradicional da cidade de Fortaleza, realizado pela prefeitura, a idéia era criar mecanismos que expandissem as fronteiras entre o espaço expositivo – Galeria Antônio Bandeira, no centro da cidade – e a própria cidade de Fortaleza, justamente para repensar a idéia de salão como uma prática moderna em contraposição a práticas contemporâneas. Sempre me intrigaram os luminosos de trânsito espalhados pela cidade, que, de certo, devem ter custado uma exorbitante fortuna orçamentária para os cofres públicos, aparentemente sem uma “verdadeira função social”. É fato que eles veiculam informações sobre o trânsito, e de alguma maneira são úteis, mas acreditava, na época, e ainda hoje,  que o potencial deles era sub-aproveitado.

Então, resolvi me utilizar do “respaldo” do Salão de Abril para realizar uma intervenção urbana nos luminosos de trânsito, negociando a veiculação de frases poéticas neste espaço, sob a jurisdição da CTAFOR, empresa responsável pelo controle do trânsito em Fortaleza. Escrevi inúmeros ofícios explicando o trabalho e conversei, em várias reuniões, com os diretores da CTAFOR, após o trabalho ter sido aceito para integrar o Salão. Estas negociações foram encabeçadas apenas por mim, já que os curadores do salão não me ajudaram como eu esperava que fossem me ajudar. Apesar do inesperado da proposta, os diretores da CTAFOR acharam interessante o projeto e conseguimos realizá-lo.

Inicialmente, ele deveria acontecer em todos os luminosos espalhados pela cidade, durante o tempo de exibição do Salão. Apesar das fatídicas estratégias de convencimento, achei interessante conversar com pessoas de outro universo e explicar a importância do trabalho, mesmo, por vezes, assumindo uma postura irreverente – uma performance, talvez?

Consegui realizá-lo apenas por uma noite e somente em um luminoso, localizado perto da Universidade Federal do Ceará, na Av. Treze de Maio. Contar aqui essas premissas iniciais, que rodeiam a realização do trabalho, é importante, porque acredito que o trabalho não foi apenas a exibição das frases, mas foi também toda a negociação que envolveu sua a realização. Todas as explicações, os ofícios enviados e a estratégia de convencimento serviram  para pensar a arte expandindo-se na cidade, intervindo, de fato, no espaço público.

da composição:

É certo que esse trabalho dialoga com as intervenções propostas pela artista Jenny Holzer, conhecida artista americana, famosa por trabalhos no espaço público. As fotos abaixo são de trabalhos da Jenny, em museus da Europa:

Ele se origina a partir de percepções específicas do espaço urbano de Fortaleza, que, de qualquer modo, é como o espaço urbano de qualquer cidade de médio porte. Desenvolvi então 13 frases, que chamei de frases-instantes, para pensar a cidade e seus fluxos, suas velocidades, e possíveis percepções sobre este espaço urbano,  no qual estava cotidianamente inserida.

frases-instantes: reflexões sobretempo/ espaço/

tempo: velocidade/ rapidez/ fluxo/ descontinuidade

espaço: urbano – cidade(s)/ fragmentação

Cada letreiro possui 32 espaços/dígitos, 16 em cada linha, sendo composto por apenas 2 linhas. Essa delimitação do suporte foi o pressuposto inicial da composição das frases: a organização espacial dos vocábulos no espaço, os arranjos sintáticos e a estrutura rítmica/ sonora de cada frase-instante. Também, na hora de criar as frases, parti de algumas referências/ percepções citadinas: revisitei o Régis Bonvincino (Não há saídas/ Só idas e avenidas), remontando sua frase, e um leitmotiv de Guimarães Rosa e seu Grande Sertão: veredas (à revelia).

Também pensei na dinâmica imposta pela direção: quando dirijo, e adoro o fazer, esta experiência é sempre para mim um espaço das abstrações, sempre pensadas a partir de imagens da cidade na qual circulo. Ao todo, foram criadas 13 frases – está faltando uma, que agora não me lembro qual era! :

TRANSITORIAMENTE

CIDADE À REVELIA

SAÍDAS NÃO HÁ, SÓ

IDAS E AVENIDAS

FURTIVOS OLHARES

MULTIPLICIDADES

DE FRETENIDOS SE

FAZ FUGAZ CIDADE

DE IMPRESSÕES SE

VÊ VELOZ CIDADE

DE INÚMEROS SONS

POLIKLAXONS

FRENÉTIDO FLUXO

FRIÁVEL CIDADE

OS TRANSAUSENTES

POR ENTRECARRAM

RELUZES MATIZES

LUMINOCIDADES

PASSOS PERPASSAM

ESCASSOS ESPAÇOS

SOB O AR, CINÉREA

FULIGEM FURTACOR

CALHAUS CALCADOS

CALÇADOS CARROS

Para divulgar a intervenção, foi publicado no jornal O POVO, no dia em que acontecera, uma nota no caderno de cultura Vida e Arte. Como a exibição acontecera próximo à Universidade e dos bares que a circudam, havia um público que pode acompanhar no momento em que as frases eram veiculadas.

Foi inclusive engraçado, porque tinham uns amigos do PSTU que não sabiam que eu estava fazendo este trabalho e começaram a especular sobre uma possível “infiltração” no sistema de informações da Prefeitura, qual uma hacker! Devo agradecer enormemente aos amigos Enrico Rocha, Waléria Américo e Mariana Smith que registraram a intervenção em fotografias. Posteriormente, em 2005, as fotos foram projetadas num dos galpões que circundam o Mercado do Pinhões, em Fortaleza-CE, durante o evento deVERcidade, organizado pelo iFoto.