exposição de um lugar ________ a outro

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2006 / exposição coletiva / centro dragão do mar / museu de arte contemporânea / fortaleza – ce

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(convite/adesivo da exposição desenvolvido pela designer Alice Macedo)

A exposição de um lugar ______ a outro surgiu, primeiramente, como um projeto. A ideia, desenvolvida por mim e por mais quatro amigas, também artistas, Beatriz Pontes, Mariana Smith, Milena Travassos e Waléria Américo, era de pensar a arte como possibilidade de instaurar outras temporalidades, abrir espaços e percepções para outras experiências que o nosso tempo contemporâneo não nos permite vivenciar.

A realização da exposição só foi possível através do 2° Edital de Incentivo às Artes, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (SECULT), que premiou o projeto, viabilizando sua feitura. Além disso, a parceria com o Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC-CE), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na época sob a direção do curador Ricardo Resende, foi fundamental, pois nos deu total liberdade de ação e concepção de uma outra museografia.  Também o contato com a designer Alice Macedo, e com os críticos Carolina Soares e Enrico Rocha, foi importante na medida em que possibilitou trocas de olhares e diálogos possíveis na realização da exposição.

“Que futuro estará reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar a ‘civilização da imagem’? (…) Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir a experiência direta daquilo  que vimos há poucos segundos na televisão.  Em nossa memória se depositam, por estratos sucessivos, mil estilhaços de imagens, semelhantes a um depósito de lixo, onde cada vez é menos provável que uma delas adquira relevo.  Se incluí a Visibilidade em minha lista de valores a preservar foi para advertir que estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros sobre uma página branca, de pensar por imagens.”  (CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. SP: Cia. das letras, 2000.)

Se, em suas Seis propostas para o próximo milênio, Calvino já nos adverte sobre a quantidade de imagens produzidas nos nossos dias, é para nos fazer refletir sobre essa faculdade fundamental do olhar, a visão. Dessa forma, esta exposição se propõe a problematizar o ato de ver e suas implicações.  Por essa dificuldade de perceber as sutilezas que nos rodeiam e de experienciar as delicadezas do cotidiano, propomos uma exposição de artes visuais, pois ainda acreditamos que a arte e as questões que ela levanta sejam uma das únicas brechas por onde podemos transpassar para perceber e desenvolver uma postura crítica sobre o mundo que nos rodeia, e assim desautomatizar o nosso olhar. O olhar que capte informações deixadas em um piso, em uma quina de parede, em uma imagem que se desfaz, em um corpo.

Dessa forma, o branco, o espaço vazio e o silêncio, por entre fissuras do cotidiano, como brechas temporais, são, na proposição dessa exposição, os fios que unem e perpassam os nossos trabalhos. A articulação desses conceitos significa redimensioná-los no tempo atual, neste tempo que não permite mais ver, mais distinguir ou mesmo entender ou que se vê, instaurando assim um outro tempo contemplativo e experiencial para o espectador, tentando estabelecer nesta divergência um outro olhar, ou mesmo uma outra vivência, possíveis para a obra de arte na contemporaneidade, uma tentativa de ainda poder dedicar um ínfimo de atenção às pequenas coisas.

Um olhar que privilegia o branco, estabelecendo um diálogo com a História Arte quando pensamos em Kazimir Malévitch e em seu “Quadrado branco sobre fundo branco”, numa redução quase total da obra de arte ao conceito. Aqui o branco, potência de uma cor que aglutina todas as outras, se configura como uma possibilidade de contraposição aos excessos visuais a que estamos imersos hoje, apontando para uma redução ao essencial, não por isso vazia de significado.  Uma pausa, apenas.

A incorporação do espaço vazio como elemento significativo, para além de apontar uma ausência, visa potencializá-lo em sua amplitude, reverberando na vastidão do espaço arquitetônico as minúcias desapercebidas por um olhar saturado, incapaz de apreender a delicadeza. E criar, neste outro espaço, do vasto, do ilimitado, um tempo que permita ao olhar ir e vir, infinitamente.

O silêncio, em suas múltiplas variantes, ausência de fala, ruído ou rumor, não absoluto porque impossível, como John Cage constatou, e sim um estado reflexivo, que se deixa escutar; se faz necessário para este outro estado da experiência artística. Um intervalo, seja de falas, pensamentos ou ações, que não necessariamente se interrompem internamente, mas que se impõem para exigir um outro ritmo de percepção.

A apreensão desses conceitos, que neste projeto não são vistos como categorias estanques, se faz em um tempo anterior ao branco, vazio ou silêncio absolutos; no limiar, no entre, no limite do visível e do invisível da percepção. Nesta interseção do que ainda pode ser visível e do que não, a imagem se dilui, o que prevalece da precisão de um instante fotográfico é a imprecisão de uma imagem que não se deixa fixar. O que a imagem propõe ao olhar do espectador é a possibilidade de enxergá-la com olhos míopes, turvos; um olhar incapaz de precisar uma única imagem, desfazendo dessa forma uma relação objetiva com a imagem, e que passe a percebê-la como uma multiplicidade de significações.

A translucidez dos materiais também proporciona percepções outras, pois reorienta a luminosidade do espaço expositivo. Luz, sombra e cores deslocam espacialmente o espectador, proporcionando uma percepção flutuante deste espaço em constante transformação, já que ao longo do dia esses elementos se alteram continuamente, marcando a passagem do tempo.

Assim como a imagem, no limite do que se pode ver e do que não, a linguagem se transforma para fazer pensar sobre o que ainda pode significar.  Entre o alfabeto Braille, que é lido pelo toque, na fricção dos dedos contra o papel preenchido por pontos/letras em relevo; e o nosso, que é lido pela vista, na decodificação de caracteres articulados, a linguagem se configura entre essas duas possibilidades como um silêncio.Nem um, nem outro, um entre significações.

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2006 / instalação em braille de vidro / centro dragão do mar / museu de arte contemporânea /fortaleza – ce

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“É verdade que, no crepúsculo, tudo o que está próximo se torna distante; as coisas que nos rodeiam vão se afastando de nossos olhos, assim como o mundo visível se afastou de meus olhos, talvez para sempre. Goethe se referia ao crepúsculo, mas também à vida: aos poucos, as coisas vão nos abandonando. A velhice poderia ser a suprema solidão, mas fosse a morte uma solidão muito maior. Essa proximidade que se torna distante pode significar também o lento processo da cegueira – a respeito do qual procurei lhes falar hoje à noite, para mostrar que ela não é a infelicidade maior. Indiscutivelmente, a cegueira está entre os muitos e tão estranhos instrumentos com que o destino ou o acaso nos brinda.”   7 noites/ cap. 7/ A Cegueira/ JLB

Alles Nahe werde fern, tudo o que está próximo se distancia, é uma frase de Goethe que foi lida em Borges. A partir da leitura feita, como em qualquer leitura que se quer leitura, vários questionamentos entrecruzaram-se: o próximo e o distante, idéias paradoxais apresentadas por Goethe e retomadas em Borges, eram pressupostos com os quais eu gostaria de trabalhar na exposição de um lugar ________a outro. Dentre outros desejos, a cegueira, tanto a real, fisiológica, quanto a metafórica, aquela que alude à nossa dificuldade de ver/perceber, de ler nas entrelinhas, de distinguir os discursos ideológicos contidos em atos de fala quaisquer, também me era fundamental.

A linguagem, tema central de minhas pesquisas e trabalhos plásticos/literários, é abordada mais uma vez nesta instalação através do Braille que, por remeter à cegueira, à dificuldade/impossibilidade de ver, surge então como interseção destes questionamentos iniciais quando retraduzo a frase de Goethe para este sistema de signos/pontos. No entanto, para trabalhar as distâncias e as aproximações sugeridas pela frase, escolhi escrevê-la com outro material que não o papel, transpondo os pontos/letras deste alfabeto para o vidro, numa inversão/rearticulação de sentidos, já que o era para ser lido com o tato passa a ser lido, ou não, pela vista, com o percorrer de um olhar.

O vidro, dentre todos os materiais possíveis que foram pensados durante o processo de criação do trabalho, pareceu-me o mais adequado, tanto por sua transparência intrínseca, que o olhar atravessa quando se põe a ver, tanto por ser sutilmente reflexivo, já que quem o olha se vê, num voltar-se a si reflexível: refletir-se ao ver, refletir sobre o ver, dubiamente. Não à toa as peças estão posicionadas na altura do olhar.

Os pontos/letras deste alfabeto, numa trajetória de pensamento, somam-se a outros pontos meus, anteriores: ponto/plano (2003) e entregando os pontos (2004) – trabalhos que discutem esta forma essencial do desenho, seja em instalação ou performance. Configurando-se como uma atitude consciente em meus processos artísticos, a apropriação de discursos de outrem, prática já utilizada na feitura de outros trabalhos, reaparece mais uma vez nesta instalação, ao tentar resignificar o já dito.

Nas distâncias percorridas entre quem diz ou rediz através de – o artista, e quem irá dizer em contato com – o espectador, talvez seja necessária ainda alguma outra distância, temporal/espacial ou, para podermos perceber uma vez mais, se ainda continuamos tentado com os nossos olhos que já cansados de tanto ver passam a não mais ver, as articulações mínimas a que se propõem os trabalhos de arte contemporânea.

As fotos abaixo foram tiradas pela artista Beatriz Pontes, durante a montagem do trabalho.

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2006 / instalação / centro dragão do mar / museu de arte contemporânea /fortaleza – ce

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Também apresentei, nesta mesma exposição, o trabalho entre dois pontos, que ficou em duas salas do museu. Para “ativar” o trabalho, era necessário, portanto, que duas pessoas estivessem em pontos diferentes do museu e esticassem o fio desse “telefone sem fio.”