exposição “hier m’abandonne, pourquoi le retenir?” Li Po

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2005 / processo / exposição “hier m’abandonne, pourquoi le retenir?” Li Po / frança

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Eu e a Sofi Hemon começamos este recto / verso (démarche/processo): trocas de correspondências por e-mail e caixas e objetos, trazidos e levados por amigos. A correspondência torna-se ponto de contato de aproximações e distâncias das nossas diferenças, nesse longo processo de trocas dos nossos cotidianos. Foi a partir da dinâmica dessas trocas, que a exposição “hier m’abandonne, pourquoi le retenir?” Li Po desenvolveu-se. Então, estes recto / verso iniciam nosso processo de trabalho.

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2005 / processo / exposição “hier m’abandonne, pourquoi le retenir?” Li Po / frança

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Caixa desenvolvida no processo recto / verso com a  Sofi Hemon, para a elaboração da exposição “hier m’abandonne, pourquoi le retenir?” Li Po. A caixa já incopora questões trazidas pela ideia de expor em um Centre Médical, lugar onde a exposição realizou-se, talvez por isso a palavra silêncio, em vermelho. As caixas trocadas durante o processo, foram trazidas e levadas por amigos, que contribuíram para a realização da exposição.

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Para ver o conteúdo da caixa, abrir o arquivo em power point: caixa silêncio

Caixa desenvolvida no processo recto/verso  com Sofi, para a elaboração da exposição “hier m’abandonne, pourquoi le retenir?” Li Po. Esta caixa, entregue em mãos, encerra o nosso processo de trocas, já que depois dela começamos a trabalhar na exposição.

Para ver o conteúdo da caixa, abrir o arquivo em power point:

projeto-caixa-preta-22

Conheci a Sofi Hémon em 2001, quando traduzi, por conta da abertura de sua exposição, uma fala sobre seu trabalho “Cor de burro quando foge”, no Alpendre – Casa de Arte, Pesquisa e Produção, espaço alternativo de arte contemporânea na cidade de Fortaleza. Naquela época, o Alpendre possuía diferentes núcleos de trabalho e vários novos artistas da cidade freqüentavam o núcleo de artes visuais, coordenado pelo artista plástico Eduardo Frota, que organizava um interessante programa de exposições com vários artistas contemporâneos, por exemplo, Ricardo Basbaum, Lia Mena Barreto e Élida Tessler.

Sempre mantive contato com a Sofi pela internet e nos encontramos de novo em Paris em 2004. A partir disso, quando retornei ao Brasil, a correspondência tornou-se menos esporádica, e, em 2005, ela propôs que nossa correspondência servisse como démarche/processo para a realização de uma exposição nossa, na França, em 2006, pois a Sofi em conjunto com a Association Oulu-Huc, da qual fazia parte, estava concebendo uma série de exposições para o Centre Médical, em Mulhouse.

Dessa forma, em 2005, começamos o recto/verso, trocas de correspondências por email e caixas (caixa silêncio e caixa 22) e objetos, trazidos e levados por amigos. Propomos que, quando nos encontrássemos na França, já em 2006, iríamos repensar como expor essa intimidade da troca dos nossos cotidianos no centro médico. As nossas trocas também foram influenciadas por outros trabalhos que estávamos realizando na época, para outras exposições, mas, ao mesmo tempo, eu já tentava elaborar as questões que uma exposição neste tipo de espaço não convencional poderia trazer. Além, é claro, de refletir sobre a nossa distância territorial e a nossa diferença de idade.

Então, algumas imagens recto/verso e as próprias caixas são pontos de contato, aproximações e distâncias das nossas diferenças, desse longo processo das trocas dos nossos cotidianos. Já estando em Paris, nos encontrávamos em cafés, parques, museus e também no seu ateliê, para discutir e concebermos juntas a exposição e pensarmos de que forma ocuparíamos o centro médico. Nesse ínterim, realizei a performance pensée-blanche, que também pensava em realizar em Mulhouse, e fui adquirindo os materiais necessários para realizar os trabalhos lá, enquanto desenvolvia o material gráfico para a divulgação da exposição.

Como estava muito influenciada pela idéia de fragmento, porque estava estudando as escritas fragmentárias, pelo viés de Roland Barthes, achava que a exposição só poderia ser composta aos fragmentos. Como dar conta de todo um universo de trocas e intimidades senão fragmentariamente? Foi muito engraçado então, ao ir encontrar a Sofi no Centre George Pompidou,  assim que cheguei em Paris, e me deparar com esta janela no caminho!!!

Também, em voltas pelo Quartier Latin, me deparei com esse cartaz sobre o Mallarmé… Acho que, de certa forma, essas imagens, que me chamaram a atenção, acabaram por ser incorporadas na construção da exposição.

Abaixo convite da exposição e divulgação eletrônica:

 
Cartaz de divulgação:

 

Acredito que, quando estamos muito concentrados em alguma coisa, nosso olhar fica canalizado e acabamos enxergando por todos os lados aquilo em que estamos pensando… Bem, essa é a minha teoria para explicar o acaso… Mas  deixando de fora minhas teorias absurdas para explicar o mundo, foi bem engraçado encontrar em Mulhouse, na rua em que eu passava todos os dias para ir de casa ao centro médico, esta caixa de fósforos de instantes!

Neste jogo de trocas duplo, entre mim e o outro, e pensando em como dar corpo à nossa intimidade, a exposição foi criada a partir de chaves que elegemos como possíveis entradas para esse nosso espaço. Elegi então 3 chaves de acesso, que antinham uma relação direta com as caixas que troquei com a Sofi e com a idéia que fazia dessa relação eu-outro. No siteda Sofi, há mais fotos da exposição, além dos trabalhos que apresentou!

DOUBLE JE, mon JE(u) // DUPLO EU, MEU JOGO

(infelizmente, em português, é impossível reproduzir o trocadilho de JE e JEU, que, em francês, possuem praticamente o mesmo som)
3 lignes sur les travaux de l’exposition // 3 linhas sobre os trabalhos da exposição

1) les travaux/ objets: // 1) os trabalhos/ objetos:

JE EST UN AUTRE// 3 quadros transparentes, escrita em papel preto e carbono

 

1.1) conception générale de l’exposition: // 1.1) concepção geral da exposição:

JE EST UN AUTRE // EU É UM OUTRO

2 papiers noirs/ 1 papier carbone noir/ performance-écriture // 2 papéis pretos / 1 papel carbono / performance-escrita

J’ écris sur un papier noir Je est un autre. // Eu escrevo sobre um papel negro Eu é um outro. Le carbone, qui est placé sous ce papier imprime sur l’autre feuille noire: Je est un autre. // O carbono, que está colocado embaixo deste papel, imprime sobre a outra folha: Eu é um outro. L’écriture traverse le noir à travers ce papier carbone, miroir dans lequel on ne se voit pas. // A escrita atravessa o preto através do papel carbono, espelho no qual não nos vemos. Cela est pour moi un geste symbolique du processus de toute l’exposition: // Isto é para mim um gesto simbólico do processo de toda a exposição: la rencontre obscure vers l’autre;// o encontro obscure em direção ao outro; l’écriture quotidienne/ répétition d’actions tous les jours;// a escrita cotodiana/ repetição de ações todos os dias;

le 3 comme JE TU NOUS;// o 3 como EU TU NÓS; le JE comme un inconnu de soi-même;// o EU como um desconhecido de si mesmo; le 3 comme un processus: écrire, passage, transcription de nos actions. // o 3 como um processo: escrita, passagem, transcrição das nossas ações.

1.2) présence/ absence des boîtes – objets qui font référence aux boîtes qui ont été envoyées// 1.2) presença/ ausência de caixas – objetos que fazem referência às caixas que foram enviadas

1°: la boîte SILÊNCIO (rapport ironique avec le centre médical) // 1ª: a caixa SILÊNCIO (relação irônica com o centro médico)

3 livres de Nathalie Sarraute, Silence, pièce de théâtre, effacés // 3 livros da Nathalie Sarraute, Silence, peça de teatro, apagados

Le seul mot qui n’a pas été effacé c’est le mot silence. // A única palavra que não foi apagada é a palavra silêncio.

2°: la boîte noire 22 (rapport avec la mort, absence d’image) // 2 ª: a caixa preta 22 (relação com a morte, ausência de imagem)

 

Performance à Mulhouse: je demande aux gens de la ville (lieu et horaire à définir) de me donner la description d’une image de la mort. Les personnes pourront écouter ces descriptions, qui ont un rapport avec l’intimité de l’autre, à l’ouverture de l’expo, avec l’appareil d’enregistrement. // Performance em Mulhouse: eu peço para as pessoas da cidade (lugar e horário a definir) para me darem a descrição de uma imagem da morte. As pessoas poderão escutar estas descrições, que têm uma relação com a intimidade do outro, na abertura da exposição, no gravador.

caixa preta // ao chegar na cidade e habitar momentaneamente o centro médico para a montagem da exposição, tive contato com um enfermeira que recentemente havia perdido seu marido. As conversas com ela me fizeram desistir de realizar este trabalho. Coloquei, desta forma, uma caixa preta, com o desenho de um tabuleiro. Em francês, a mesma palavra que nomeia o jogo de xadrez, échec, também significa fracasso.

1.3) Jeu de dardes / Tirer au hasard // 1.3) Jogo de dardos / Arremessar ao acaso

 

Jeu de dardes/ 1 seul darde rouge / Plusieurs fiches rouges // Jogo de dardos / Somente 1 dardo vermelho / Inúmeras fichas vermelhas

Jeu de soustraction ( moins un numéro) // Jogo de subtração
Notes sur la composition d’une oeuvre d’art, le jeu du hasard dans ce processus // Notas sobre a composição de uma obra de arte, o jogo do acaso neste processo

Notes en double, écriture sur l’écriture: Mallarmé (Coup de dés// Notas em dobro, escrita sobre escrita: Mallarmé (Lance de dados)

Como efetivamente não realizei nenhuma performance na cidade de Mulhouse,  pensei em fazer a performance que já havia realizado em Paris, pensée-blanche. No dia em que me programei para realizá-la, acabou chovendo. Na vernissage da exposição, então contei meu intuito:

“No dia 28 de março, dia da vernissage, chovia em Mulhouse. Devia estar chovendo também alhures, mas eu nada sabia sobre isso. Apesar da chuva que caía, eu saí de casa quinze para o meio-dia, para realisar 3 performances, sempre a mesma, mas em 3 diferentes lugares da cidade. Antes de sair, eu peguei os pensamentos brancos – pequenos papéis em branco que iria distribuir – e 3 guarda-chuvas coloridos: um vermelho, um azul e um preto.

Ao meio-dia, como eu tive sorte de sair cedo, eu pude estar em 3 lugares diferentes da cidade ao mesmo tempo. Por outro lado, para ser um pouco prática, eu tive que escolher um guarda-chuva para cada lugar. Não por acaso, mas por razões específicas, eu escolhi o vermelho para a rua dos selvagens, o azul para o mercado, e o preto para o hospital.

As performances ocorreram bem e as pessoas também reagiram bem: algumas riram, mas outras tinham problema para compreender para quê poderia servir este tipo de pensamento.  Do meu lado, a parte isto, foi um pouco difícil de manter à mão, sempre ao mesmo tempo, guarda-chuvas e papéis brancos.”

Abaixo, o material gráfico da publicação:

Depois da exposição, segui em viagem, para participar de outra mostra, VIZINHOS, em Viena. Como passaria por Praga, cidade com a qual Sofi mantém também uma relação de intimidade, e que eu iria, depois, também passar a ter, lhe perguntei: – Como habitar as cidades em passagens?

Dessa pergunta, surgiram indicações de percursos e ações a serem realizadas em lugares precisos em Praga. O retorno a Paris, nosso lugar de convergência, foi marcado por nosso reencontro com o leste e as possibilidades de habitarmos, sempre no provisório e com um olhar de intimidade, as passagens por cidades-sonhos, cidades-reais, cidades-estranhas, cidades…

Disso, surgiu a proposta de pensarmos Fortaleza, a partir de uma memória que ela tinha: a linha do ônibus Parangaba/Mucuripe. Desenrolar um fio, em outra ponta. Porém, assim que retornei ao Brasil, mudei-me para São Paulo, e Fortaleza, minha cidade natal, também passou a ser, para mim, um espaço da memória afetiva.

Depois da exposição, “hier m’abandonne, pourquoi le retenir?”, em parceria com a Sofi, segui em viagem, para participar de outra mostra, VIZINHOS, em Viena. Como passaria por Praga, cidade com a qual Sofi mantém também uma relação afetiva, e que eu iria, depois, também passar a ter, lhe perguntei: – Como habitar as cidades em passagens?

Dessa pergunta, surgiram indicações de percursos e ações a serem realizadas em lugares precisos de Praga. As possibilidades de habitarmos, sempre no provisório, e com um olhar de intimidade, as passagens por cidades-sonhos, cidades-reais, cidades-estranhas, cidades…  De algum modo, essa idéia de habitar uma cidade pelo olhar do outro já estava presente na minha vida há algum tempo, sem ser incorporada como uma prática artística…(onde começa a arte e acaba a vida? onde começa a vida e acaba a arte?)

Disso, surgiu a proposta de pensarmos Fortaleza, a partir de uma memória que ela tinha: a linha de ônibus Parangaba/Mucucuripe. Desenrolar um fio, em outra ponta. Porém, assim que retornei ao Brasil, mudei-me para São Paulo, e Fortaleza, minha cidade natal, também passou a ser, para mim, um espaço da memória afetiva.

Desenvolvi então uma espécie de cubo mágico, com o nome da linha de ônibus, explorando o grafismo do tabuleiro, porque, a partir de um desenho que fiz na exposição, pensamos em continuar trabalhando, a partir da dinâmica do tabuleiro…. De certa forma, este objeto, encerra este ciclo de trabalho com a Sofi, e abre espaço, se pensarmos na metáfora do cosmos contida nos tabuleiros, para uma outra relação.

“Feche os olhos e pegue um cubo mágico na mão e brinque com ele. Se, quando você abrir os olhos, o cubo estiver resolvido, com todas as faces nas cores certas, é melhor você começar a jogar na loteria. Pois é mais provável ganhar duas vezes na megasena do que isso acontecer. Mas o húngaro Emö Rubik, escultor e professor de arquitetura que inventou o cubo, em 1974, nem fazia idéia disso. Seu objetivo era apenas resolver um desafio de design: como construir um cubo cujas partes se movam e continuem presas às outras? Inspirado em pedrinhas do rio Danúbio, ele criou uma estrutura cilíndrica interna que deu conta do recado. Fez a alegria de seus alunos de arquitetura, que ficaram obcecados por horas na tentativa de resolver o enigma do cubo. Mas o curioso brinquedo de Rubik só deixou as margens do Danúbio para ganhar o mundo quando um artigo matemático o pôs na capa da revista científica Scientific American, em 1979. O artigo afirmava que é possível resolver o problema do cubo em 22 jogadas.” (Revista SIMPLES)

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