jornal diário catarinense

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2008 / poemas / publicação impressa / florianópolis – sc

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“poema sem livro”

Objeto-Experiência, nº 3 |26 de julho de 2008 | N° 8142

Uma das artimanhas que acho das mais interessantes com o poema é a do poeta sem livro, até porque, imagino, todo poema não passa de uma artimanha, uma trapaça, uma forma de vida entre a linha tensa e o risco. E a ausência do livro, mas não do poema (porque sempre há o poema, mesmo onde ele parece não haver), arma uma questão entre o poema e o lugar e um sem-fim de variações disso. Gosto da idéia do poema solto, sem prêmio ou concurso, que corre o sentido para o que é vago, o poema que não se oficializa, que não mata a sua própria fome. E uma das impertinências desta página é dar a ver o que um cego não pode tocar, como uma cilada. Este passo rápido inventa uma possibilidade por duas poetas sem livro: Érica Zíngano e Nicola Gonzaga.

A primeira, Érica, nasceu em Fortaleza, no Ceará, em 1980, e hoje vive em São Paulo, que chama de “cidade de ninguém e de todo mundo”. Faz mestrado em Literatura Portuguesa na USP, onde se debruça sobre o trabalho de Maria Gabriela Llansol. Em 2005, fez parte de uma série de plaquetas lançadas pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, do Ceará, com vários autores, intitulada drobapura: a arte da meditação. Esta série de plaquetas monta uma conversa entre um artista visual e um poeta, mas, como Érica impõe seu trabalho nesta zona cruzada, sua plaqueta se fez sozinha, desfazendo e refazendo a zona. Tem, também, um outro poema desdobrado, noite, dias brancos, publicado na revista Zunái, na internet.

A segunda, Nicola, nasceu em 1987, em Florianópolis, onde mora ou ainda mora. É estudante do curso de Letras-Português na UFSC, leitora movida a Clarice Lispector, diz ela. Com resvalos sinceros entre CaioFernando Abreu (que acho é ou tem sido a pauta de uma leva de jovens leitores, como formação e gozo), passeando de Charles Bukowski ou Kafka numa espécie de tentativa deliberada para encontrar uma palavra livre ou um desenho possível do mundo que possa romper com toda ou alguma burocracia para roçar, que seja, um sentido ausente.

Não há nenhuma relação possível entre estes trabalhos de Érica Zíngano e de Nicola Gonzaga, apenas e talvez em algo muito próximo do que pode ser um esforço (como sugere Joaquim Cardozo: o esforço como aquilo que pode perturbar o real numa “forma formante” ou numa “forja da destruição”, num “ponto furo da imagem”).

Érica desenvolveu uns trabalhos com a artista visual francesa Sofi Hemon para a exposição hier m’abandonne, pourquoi le retenir? (um verso de Li Po) no Centre Médical de Mulhouse, França, em 2006. Alguns desses trabalhos e outros podem ser vistos nos blogs 1000 e 1 notas e eu coleciono histórias de amor. O trabalho que aparece na fotografia de Érica é intitulado Pensée-blanche, e passa um pouco por suas anotações de caderno (seus poemas são um pouco isso, anotações de caderno), um gesto em branco que uma piscadela com o mundo aberto pode compor.

Nicola, ainda tateando o poema, cumpre sua escritura no prisma do que ela chama de um outro uso da palavra, algo para “desenformar” o pensamento e qualquer idéia de lugar certo, lugar que parece vir num certo tom para baixo, num certo olhar para o chão, onde o cotidiano respira errado e solicita um pouco de ar em cada verso quase brando, um tanto doce um tanto rude. Os poemas que seguem são apenas uma mostra destes trabalhos que prosseguem sem livro, e raspam uma das idéias deste objeto-experiência: mover o quase nada e o quase muito daquilo que não, daquilo que sim; mover outra vez aquilo que já se move sozinho.

MANOEL RICARDO DE LIMA

PROFESSOR DE LITERATURA, POETA, AUTOR DE 55 COMEÇOS (EDITORA DA CASA),

ENTRE OUTROS

para ler os poemas: [http://www.clicrbs.com.br/pdf/4760931.pdf]